Pilar Albarracín

Y no estaba muerta, no, no, que estaba en la cocina

2006-06-22 | 2006-07-29

PILAR ALBARRACÍN
"...Y no estaba muerta, no, no, que estaba en la cocina"

De 22 Junho a 29 de Julho de 2006.


Pilar Albarracín, nascida em Sevilha (1968), vive e trabalha actualmente em Madrid. Ela própria nos diz que o seu trabalho tem vindo a analisar as narrativas dominantes e é produto de uma reflexão sobre alguns aspectos quotidianos. Através de meios como o vídeo, a performance, a fotografia, a escultura, a instalação, a questão que aqui se coloca é a de saber se se devem/ podem ou não manter os papéis tradicionais de género.

Pilar Albarracín faz da herança cultural e das questões de identidade e género cultural o seu território de trabalho. Explora referências como sejam o flamenco, a comida, a crença religiosa, a diferença entre o mundo rural e o mundo urbano, as superstições e as festas, os ditos e as canções populares. A artista ocupa-se de temas como a imigração, a obsessão por um determinado tipo de beleza inculcada através da publicidade e dos mass-media mas, sobretudo, sobre o papel da mulher, de como uma dominação se transformou em instituição.

A arte de Pilar Albarracín poderá ser entendida como uma metáfora da insubmissão. O seu trabalho sobre os clichés e estereótipos culturais, feito de ironia, mostra as estruturas de dominação e dá a ver no osso, a violência que se exerce sobre as mulheres. A artista faz dos papéis e comportamentos das mulheres o seu campo de batalha; as suas obras analisam, denunciam, criticam e, para aqueles que acreditam que a arte pode mudar o mundo, funcionam como terapia. Esse discurso, generoso e tragicómico, não é apenas sobre um país, uma cultura, uma identidade, um género em particular, mas sobre todos nós. A expressão de Pilar, num desejo feroz de se fazer comunicar mas capaz de rir de si, adquire mesmo um certo dramatismo. O imaginário de Albarracín é feito de carne e sangue, de tripas e coração, de dor e riso, de generosidade e coragem, de grito e combate, de rituais e castigo, de excesso e também de uma certa crueza.

A exposição agora patente na Galeria Filomena Soares, em Lisboa, e intitulada "...Y no estaba muerta, no, no, que estaba en la cocina" articula-se a partir de uma instalação central composta por panelas de pressão, algumas das quais equipadas com uma saída de aúdio, por onde se dá a ouvir um fragmento modificado do Hino da Internacional.
Pilar escolhe actividades consideradas tipicamente femininas, as domésticas, como o cozinhar e o bordar na série "Diálogos imposibles", para questionar, com humor, os clichés associados à identidade de género e ao papel da mulher na sociedade. Também reflecte sobre a mulher artista no seu vídeo "La reencarnación". Pilar não estará assim, a explorar por explorar o cliché, nem a documentar. Talvez a sua insistência nos obrigue, num momento em que assistimos à despersonalização da sociedade, ao confronto com imagens dadas como eternas para que continuemos a questionar os papéis tradicionais.

Liliana Rodrigues