Pedro Casqueiro

Spirit Shop

2010-01-21 | 2010-04-16

 

Pedro Casqueiro "Spirit Shop"

PRESS RELEASE

 

Desde a sua primeira individual na Galeria Tempo (Lisboa) em 1981 com apenas 21 anos, Pedro Casqueiro expôs regularmente e participou em inúmeras incitativas que viriam a determinar a trajectória da arte contemporânea nacional. O seu percurso está assim indissociavelmente ligado às circunstâncias específicas dos anos 80 e 90 e às influências internacionais que então exerceram considerável supremacia no trabalho dos autores portugueses da sua geração contaminando as suas obras e pautando, por sua vez, a progressão da arte portuguesa.

 

Sem embargo, a valia e qualidade distintiva do artista, residiu precisamente no facto dessa permeabilidade nunca ter sido significativa, prevalecendo até aos dias de hoje como evidente e amplamente reconhecida a opção de Pedro Casqueiro por uma arte pessoal e original mantendo-se distante das preocupações que mortificaram e regulamentaram a actividade dos artistas seus contemporâneos: "O que me interessa pessoalmente é ter liberdade - que passa por uma demarcação social e estética - de fazer o que quero sem ser constrangido de nenhuma forma[1]".

 

Em "Spirit Shop" Pedro Casqueiro mostra-nos um conjunto de trabalhos realizados entre 2008 e 2009, que não se inserindo em nenhum ciclo específico e datado, uma vez que o artista não trabalha a partir de temas ou denominadores comuns, atestam uma das principais características da totalidade da sua obra pictórica: a realização de um trabalho continuado de pintura.

 

As obras seleccionadas para esta exposição elucidam-nos assim do tempo "presente" da pintura de Pedro Casqueiro, que não obstante as variações registadas nestes anos de actividade ininterrupta de pintura - mais abstractas ou mais figurativas, gráficas, expressionistas ou padronizadas - são o resultado dessa prática contínua, como se cada quadro fosse, sem o ser, a extensão do outro, surgindo no seguimento do antecessor e prenunciando o sucessor. A sua pintura é legatária de si mesma: "é difícil e não muito interessante explicar porque é que uma forma nasce de uma situação. Há uma coincidência mental, uma cabeça que formula as coisas e encontra correspondência com a realidade, há uma coerência que será intrínseca mas não é explicável, e é precisamente esse o interesse da pintura[2]".

 

Rigor tem sido um adjectivo comummente empregue na interpretação do trabalho de Pedro Casqueiro em particular pelas composições elegantes e equilibradas, numa arte estruturalista de singular pureza plástica que, refira-se, diferencia a sua pintura independentemente da sua concretização plástica se traduzir em morfologias orgânicas ou formas geométricas. Uma abstracção despojada e baseada fundamentalmente nos valores da cor profusa e da estrutura, uma pintura que poderemos dizer que se concentra no essencial, mas que, inesperadamente, também é pensada no próprio acto de pintar - "Não é que haja um sistema; durante a feitura de um quadro vou experimentando várias justaposições, depois há uma selecção: umas funcionam, outras não, isto no sentido de que o quadro tem de ser um todo conseguido".

 

Percebe-se, deste modo, que os habilidosos jogos estruturais e espaciais presentes nas suas pinturas resultam tanto de uma elaboração racional como da intuição determinada no processo de experimentação ligado à emoção e a uma necessidade interior. Nestas abstracções construídas, Pedro Casqueiro vai paulatinamente arquitectando a estrutura das suas pinturas, explorando os valores fundamentais da cor, da forma e da composição, atribuindo-lhe sempre a mesma hierárquica, como se tudo se difundisse seguindo uma força centrípeta e representando o quadro simultaneamente o espaço e o momento em que esses elementos se unificam.

 

As dinâmicas compositivas patentes nas obras do artista seja mediante a intersecção de linhas e formas que se sucedem, de padrões que se aliam e sobrepõem ou da justaposição de volumes, propiciam a cadência essencial ao envolvimento do espectador que é assim incitado a olhar e a sentir além da bidimensionalidade e aparente rigidez de cada quadro. O ritmo é ainda reforçado pelo uso recorrente de tonalidades da mesma cor e misturas cromáticas trazendo à memória o expressionismo abstracto de telas de outros tempos. O fundo, tendencialmente monocromático em que se inscrevem ou se deixam ver formas muitas vezes animadas por palavras, não deverá ser entendido como uma moldura inerte para o exercício da pintura, pois muitas vezes assume um papel fulcral na leitura e entendimento da composição.

 

Todas as obras patentes em Spirit Shop consagram mais de trinta anos de trabalho de Pedro Casqueiro e confirmam uma carreira coerente e personalizada de um artista que representa uma figura singular no panorama nacional.

 


[1] As presentes citações são excertos de uma entrevista concedida pelo artista ao Jornal Expresso em 1985, transcritas do catálogo Pedro Casqueiro publicado no âmbito da exposição organizada pela Fundação Calouste Gulbenkian e Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdição, que teve lugar de 4 de Junho a 14 de Setembro de 1997.