Dias & Riedweg

Sentidos sem direcção e outras direcções de sentido

2009-09-10 | 2009-10-25

 

Com a escolha do título Sentidos sem direcção e outras direcções de sentido para a primeira apresentação do seu trabalho em Portugal, Maurício Dias e Walter Riedweg anunciam de imediato o tema condutor de uma exposição por todos muito aguardada e que, por isso mesmo, compreenderá obras de 1998 até aos trabalhos mais recentes realizados no inicio do presente ano de 2009.

 

Maurício Dias licenciou-se em Belas Artes e Walter Riedweg em música, teatro e perfomance. A combinação destas valências terá seguramente propiciado o recurso aos diferentes dispositivos teatrais, documentais, plásticos e sensoriais de que se servem para realizar os seus filmes e vídeo-instalações, e ainda contribuído para o facto de se terem tornado uma referência no panorama artístico internacional confirmando as possibilidades e a viabilidade de um trabalho colaborativo em arte contemporânea.

 

Dias & Riedweg trabalham juntos desde 1993. Desde então, os seus trabalhos têm vindo a abordar uma diversificada gama geográfica e social, servindo a sua arte de plataforma de reflexão sobre questões humanas tanto individuais como colectivas, no caso desta exposição: a imigração, o exílio e o deslocamento.

 

Em cada trabalho realizado uma história é construída, ao mesmo tempo, que produz temporária, ou mesmo permanentemente, uma fissura, uma interrupção, um distanciamento na ordem dos sentidos e no curso das coisas.

 

Ainda que abordam temas caros à produção documental contemporânea, os projectos Dias & Riedweg não são elaborados a partir de uma tradição documental e os artistas nem tão-pouco reivindicam essa filiação. Jogando com a dicotomia entre o documentário e o ficcional, renovam o diálogo entre o documentário, a arte contemporânea e as estratégias colocadas em cena para reacender o real. Nos seus projectos, existe o que poderemos entender por documentação das coisas reais, realidades, formas de viver, e, concomitantemente, uma reinvenção dessas formas, onde as cenas são proposições fictícias.

 

Ocupando na totalidade as duas áreas da galeria, a exposição apresenta um vasto conjunto de trabalhos desenvolvidos a partir de diferentes media e abordagens discursivas que se relacionam entre si a partir de um denominador comum que os artistas têm vindo a pesquisar nos últimos anos: o tema do deslocamento.

 

O conjunto propõe uma abordagem à diversidade de elementos subjectivos e factos que originam o deslocamento tanto de objectos como de pessoas no espaço físico em que se inserem.

 

Servindo-se alegoricamente de objectos de viagem e veículos de transporte -cuja natureza transitória pressupõe uma transferência contínua de lugar - Dias & Riedweg ilustram paralelismos entre o simples deslocamento de objectos e os complexos processos históricos e políticos que originam migrações humanas nas mais diferentes regiões do mundo, transferindo, deste modo, o centro de um intrincado e omnipresente fenómeno das sociedades contemporâneas para a esfera da filosofia e da subjectividade pessoal.

 

 

Das inúmeras exposições individuais e colectivas onde têm apresentado os seus trabalhos nestes dezasseis anos de parceria destacamos as participações na Bienal de São Paulo em 1998 e 2002, na Bienal de Veneza em 1999 comissariada por Harald Szeemann, e, mais recentemente, em 2007, a participação na Documenta 12, Kassel.

 

 


 

BREVE DESCRIÇÃO DAS PEÇAS EXPOSTAS

 

 

À entrada da galeria, no EXTERIOR do espaço expositivo, a primeira obra de Sentidos sem direcção e outras direcções de sentido prenuncia as reflexões sobre os temas do deslocamento, mudança e imigração de objectos, mote da exposição.

 

Referimo-nos ao projecto Caminhão de Mudança iniciado em 2009. Um camião de mudanças estacionado em frente aos portões da galeria serve de suporte para a projecção de um vídeo e consequente realização de uma nova fase, que Dias&Riedweg designam de camadas, de um projecto actualmente em curso e cuja natureza pressupõe uma transformação gradual e progressiva.

 

As fases antecessoras, são novamente exibidas sobre uma tela de retroprojecção colocada na traseira do veículo. Este evento é novamente filmado pelos artistas e transmitido live para dentro da galeria, onde a partir do dia seguinte passará a integrar a exposição.

 

Em Lisboa os artistas darão assim continuidade a um projecto já iniciado: a primeira filmagem decorreu em Bruxelas, na inauguração do Festival des Arts. A segunda na Park Avenue em Nova York na abertura da exposição dos artistas na Americas Society, onde apresentaram as imagens registadas durante a inauguração anterior no Festival belga. É justamente o último registo, realizado em Nova Iorque, a ser transmitido na inauguração da exposição Sentidos sem direcção e outras direcções de sentido.

 

Uma projecção inclui a projecção de outra projecção, acumulando camadas que indicam o passar do tempo e o deslocamento das coisas.

 

 

SALA PRINCIPAL

Os Raimundos, os Severinos e os Franciscos, realizado no âmbito da XXIV Edição da Bienal de São Paulo em 1998 sob o tema da antropofagia, remonta aos primeiros anos desta parceria e representa uma das obras mais significativas dos projectos com assinatura Dias & Riedweg.  

 

Este trabalho versa sobre o canibalismo ético que rege as relações entre as classes sociais na capital paulista. Uma projecção coreográfica de 4 minutos realizada com um grupo de porteiros de São Paulo, todos chamados Raimundo, Severino ou Francisco, nomes comuns no Nordeste brasileiro, que migraram para São Paulo à procura de trabalho na construção civil.

 

Comummente, a maioria destes nordestinos tornam-se porteiros[1] dos edifícios que ajudaram a construir, sendo-lhes destinado um pequeno aposento para viver no prédio que os esconde e absorve na arquitectura da classe média da metrópole brasileira.

 

Este vídeo mostra-nos um cenário que reconstitui, precisamente, um desses quartos e os porteiros a entrarem como se estivessem a voltar para casa depois de um dia de trabalho. Todos vão entrando em cena, um depois do outro, sem comunicarem, como se estivessem sozinhos, até o espaço ficar lotado.

 

A representação dos exíguos quartos habitados por porteiros funciona como metáfora da invisibilidade social desse grupo, remetendo para o título da bienal - Antropofagia social.  Será o porteiro a engolir São Paulo ou será pelo contrário São Paulo a engolir o porteiro?

 

Por último, aborda ainda a questão do deslocamento sob a perspectiva da condição do imigrante que "permeia não apenas as escolhas de vida de Maurício Dias e Walter Riedweg, mas principalmente as suas posições artísticas e políticas. É interessante pensar a configuração das próprias identidades dos artistas, um suíço e o outro brasileiro. (...) A viagem está na sua própria dinâmica de trabalho, já que a maioria de seus projectos é feita longe da realidade e dos territórios os quais pertencem. Ambos subverteram configurações e identidades pré-estabelecidas, assumiram o papel de viajantes olhando e descobrindo o mundo e suas múltiplas subjectividades (...)[2]"

 

 

Malas para Marcel é uma peça composta por 12 maletas, colocadas sobre pedestais, que no seu interior contêm leitores de DVD portáteis que transmitem o vídeo de sua própria memória. Num tributo às boîte-en-valise de Marcel Duchamp, estes objectos encerram em si a sua história, processo e destino.

 

Nos vídeos transmitidos em cada maleta vê-se a mesma a ser transportada por pessoas de identidade desconhecida através da cidade, a migrarem de um lugar para outro num trajecto indistinto e continuado: cada mala é deixada num lugar público e transportada por uma pessoa que passa e que seguidamente a abandona noutro lugar para ser recuperada por uma outra pessoa e assim consecutivamente como uma corrente contínua. Neste vídeo-objecto o próprio objecto é o seu tema. Não há narrativa, apenas o olhar periférico.

 

Num 13º pedestal, a projecção de um vídeo mostra o caminho das 12 maletas da chegada no aeroporto até o momento da montagem da exposição na própria galeria.

 

Por último, no 14º pedestal, referimos ainda o vídeo David & Gustav (2005), no qual dois artistas sexagenários, David Medalla e Gustav Metzger, falam alternadamente sobre arte, vida, imigração e política no contexto de suas próprias vidas.

 

Cada Coisa no seu lugar. Outro lugar, outra coisa (2009) um painel fotográfico em D-sec, composto por 9 fotografias, mostra-nos as malas para Marcel, que entretanto voltaram às prateleiras das lojas e se confundem com outras malas.

 

 

A Casa, A Casa (2007), vídeo-instalação de parede composta por cinco vídeos dispostos em monitores de ecrã plano de diferentes formatos sobre um plotter de vinil apresenta-nos a multiplicação da dupla de artistas Dias&Riedweg em cinco vídeos, sendo que, cada um deles encontramos os "vários Maurícios e vários Walters" em situações quotidianas. A multiplicação dos personagens em cada vídeo remete a tradição artística do auto-retrato para um tema caro a esta dupla de artistas: a alteridade. Dentro da temática da exposição, a leitura do paraíso possível em A Casa apresenta o outro como paraíso do self e vice-versa. Em A Casa, o self transforma-se numa soma de vários outros que o compõem. Uma vez mais, os autores nos recordam da fragilidade da fronteira entre os opostos real e ficção.

 

A série de fotos lenticulares, intitulada O Jardim (2008), revela-nos as mesmas personagens (os múltiplos Eus de Maurício Dias e Walter Riedweg) que paulatinamente vão assombrando os vídeos em A Casa.

 

Na SEGUNDA SALA, Paraíso Cansado (2009), uma vídeo-instalação realizada para a II Bienal das Canárias em 2009 que tem como cenário as dunas de Maspalomas, local que recebe todos os anos milhares de turistas de todas as partes da Europa para a prática sexual anónima denominada cruising.

 

Dois homens, um vestido de negro e o outro de branco, caminham em simetria sobre dunas de areia. Eles reconhecem-se e caminham em direcção um do outro. Passam um pelo outro. Vêem-se novamente e uma vez mais se dirigem um ao outro. Passam repetidamente um pelo outro. Um segue o outro. Encaram-se mas não se comunicam. Há uma atmosfera de desejo e de impossibilidade. O sol é a única testemunha do que acontecerá. Um oceano e um espelho como pano de fundo.

 

 

Esta peça encerra a exposição sugerindo que a relação entre o desejo subjectivo e a paisagem é um elemento principal na produção de deslocamentos e mudanças dos objectos e das pessoas no espaço geográfico que co-habitamos.

 

 

 

 

 


[1] Segundo o Sindicato de trabalhadores de São Paulo cerca de 90% desses trabalhadores são naturais do Nordeste Brasileiro. Só na cidade de São Paulo a dupla de artistas encontrou registados 1000 Raimundos, 1200 Severinos e 1500 Franciscos.

[2] HUAPAYA, Priscilla Schimitt . Alteridade como poética visual na estética videográfica de Maurício Dias   e Walter Riedweg. In: XXXI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2008, Natal. XXXI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2008.