Rodrigo Oliveira

Da obra ao texto

 

RODRIGO OLIVEIRA | GALERIA PRESENÇA (Porto)

Press Release

 

 

Da obra ao texto reúne uma série de peças inéditas que recorrem por um lado à arquitectura e princípios de construção que são aspectos recorrentes na obra do artista  assim como trabalhos sobre e com o texto. O título foi "emprestado" de um célebre texto de Roland Barthes com o mesmo nome onde são analisadas as diferentes formas possíveis de o "leitor" se poder relacionar com uma obra e com um texto.

 

 

Na sala de entrada são apresentadas:

 

Construções complexas (geografia da casa) onde placas de emergência são intervencionadas substituindo as usuais plantas dos edifícios por plantas inacessíveis partindo de pantones e estudos preparatórios de casas de arquitectos modernistas de referência como Corbusier e Mies Van der Rohe.

 

Espaço a preencher  parte dos tradicionais quadros de cortiça ou de feltro que estamos habituados a encontrar na entrada dos prédios  e onde são afixadas as informações referentes ao funcionamento do edifício assim como interesses do condomínio. Usando a linguagem herdada da arte conceptual pelo uso recorrente da tautologia, são colocadas fotografias presas por pins (pióneses) em que cada um corresponde à localização galaica de cada estrela, como se fosse uma marcação de um território de uma geografia imaginária. Os restantes quadros que contêm diamantes falsos comentam a especulação imobiliária e o valor do espaço e da propriedade.

 

 

Sala 1:

 

São apresentadas uma series de construções intituladas de Fachadas de duas series de trabalho distintas. Os desenhos geométricos partem de referências conceptuais e formais sobretudo no que respeita a composição e escala visíveis em edifícios modernistas ou do chamado "estilo Internacional".  As formas são ordenadas e reconfiguradas num material bastante usado em maquetas de arquitectura e convocam ao mesmo tempo uma relação de performatividade e de inclusão do espectador como parte integrante da obra.

 

20792 (Unité d`Habitation) parte de um desenho de Corbusier sobre o esquema de cores usado nas fachadas de uma das suas obras mais paradigmáticas o Unité d`Habitation de Marselha. Aqui o desenho inicial é substituído por um desenho queimado pelo sol que representa a volumetria do edifício. O quadro de cortiça semelhante ao dos condomínios é o suporte desse mesmo desenho em que pióneses coloridos e agrupados remetem ao esquema de cores de cada varanda.

 

 

Na mesma sala ainda são apresentadas:

 

Mi casa (és) Tu casa, uma pequena peça escultórica, um cadeado que nos transmite uma sensação de clausura, de protecção, mas que não significa  isolamento. Nesta peça em particular queria falar das relações emocionais que os objectos e em última instância a arquitectura da casa que lhe é directamente associada convoca. Aqui há um jogo entre emoção, relacionamentos afectivos. Será hospitalidade ou um encontro fortuito?

 

São apresentadas ainda duas plantas " Nada a declarar, destinos exóticos" onde malas de contrafacção de marcas conhecidas adquiridas em feiras ou lojas orientais são previamente  desconstruídas para posteriormente se construírem plantas exóticas. A ideia é comentar as alfândegas e o transporte e circulação ilegal de mercadorias.

 

 

Sala 2

 

São apresentadas várias obras que recorrem ao texto.

 

Estante de serviço (leitura em diagonal das paginas amarelas) parte de um poema de uma música de Adriana Calcanhoto. As páginas amarelas são cortadas página a página e coladas de modo a reconfigurar uma estante de livros organizada alfabeticamente.

 

The gap between civilization and culture colecciona páginas retirarias de dicionários eduacionais onde são delimitadas todas palavras e o seu significado entre as palavras civilização e cultura.

 

From work to text 2 parte do celebre texto de Roland Barthes e que dá o nome á exposição. O texto é rescrito usando um método de escrita laborioso como as blackmail letters. É usada uma tautologia para acentuar uma repetição de ideia pela repetição de um processo. Tal também se encontra em Metro print, em que um jornal Metro, de distribuição gratuita, contém um metro de comprimento.

 

 

And so what? e Size does matter joga com uma piada linguística,  em que  o valor de pedras preciosas que o próprio material da peça evoca, os diamantes, não significa que sejam mais valiosos pelo seu tamanho mas sim a sua pureza e brilho cristalinos.

 

A distância entre Eu e o Outro (Lisboa) e (Porto) parte de um poema do Mário de Sá Carneiro e consiste em excertos de listas telefónicas das respectivas cidades onde figuram os nomes entre pessoas com o sobrenome eu e outras entre outro. Quem fica excluído e quem não fica.

 

Today & Now é uma peça de chão que parte de livros de arte da Taschen e da Phaidon sobre arte contemporânea. Os livros foram destruídos  e alegoricamente transformados em conffetis.

Ao usar vários suportes para expressar as suas ideias, o trabalho de Rodrigo Oliveira tem sido caracterizado por intervenções site- e context-specific que partem da reflexão sobre funções e características inerentes a certos espaços arquitectónicos e uma certa atitude de análise e comentário dos mecanismos de legitimação, existência e propagação do sistema artístico. Recorrendo a intervenções que se centram em torno dos dispositivos necessários para a apresentação e visibilidade de obras de arte e que envolvem activamente o espectador como parte integrante e dinamizadora da obra, o artista tenta explorar a condição do individual num mundo dominado pelo social, económico e pelos modelos culturais, propondo uma reflexão sobre os mecanismos de identificação e participação usados na arte e na vida quotidiana.