João Penalva

Trabalhos com texto e imagem

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Centro de Arte Moderna
Fundação Calouste Gulbenkian

Rua Dr. Nicolau de Bettencourt
1050-078 Lisboa

terça - domingo 10:00 / 18:00


Curadoria Isabel Carlos

Um dos mais internacionais artistas portugueses e vivendo em Londres há mais de 30 anos, João Penalva (Lisboa, 1949) apresentará no CAM uma grande exposição antológica que tenta dar a conhecer as múltiplas facetas da sua obra desde a pintura dos anos 90 às instalações e filmes porque ficou mais conhecido a partir do final desta década. Teatro, cinema, narratividade e texto são referências fundamentais numa obra que tem tanto de complexo como de minucioso, de humor como de lacónico.

O título denotativo e descritivo «Trabalhos com texto e imagem» é uma das marcas autorais de João Penalva, ou seja, a exposição de carácter antológico tem como fio condutor precisamente as suas obras com texto.

O texto ou a letra pode ser a única imagem, como em Saloon, S (1992), ou em Faussone (1996), ou ser a legendagem-narrativa de um vídeo com um único plano, como, por exemplo, em 336 PEK (2001).

A enumeração e a descrição estão presentes no trabalho de João Penalva desde o início; nas tabelas das suas pinturas da década de 1990 nunca há uma designação como «técnica mista» ou «diversos materiais» mas antes o elenco de materiais e técnicas - veja-se a título de exemplo, a tabela de F (1994): «acrílico, pó de pedra-pomes, pó de mármore e pigmento sobre tela e madeira». Esta pulsão para a escrita será aprofundada e radicalizada nos trabalhos seguintes em vídeo.

Ler e ver, ler ou ver são assim actos fundamentais na obra de Penalva. Tanto o ler como o ver implicam desde logo interpretação: interpretamos uma imagem tal como interpretamos uma frase de um texto. O contexto determina os dois campos de interpretação. Interpretamos uma imagem consoante a imagem que vem antes ou depois ou a duração do plano da mesma imagem; se a isso se juntar depois a voz ou o texto, o campo de interpretação aumenta exponencialmente.

A obra de Penalva alerta-nos permanentemente para estes mecanismos da percepção e da interpretação, desmonta-os, isola-os, faz-nos ver e pensar o que normalmente temos como adquirido e não vemos nem pensamos.

Tal como nos filmes de Alfred Hitchcock, nada do que parece é, ou melhor, nada daquilo que pensamos estar a ver ou a ler é de facto o que temos frente aos olhos.

Ilusionista e manipulador, este universo artístico joga com a nossa memória, com os lugares comuns, os clichés perceptivos e obriga-nos a uma permanente interrogação sobre a realidade, o mundo, as relações humanas, o tempo e o espaço.

A tradução e o recurso a várias línguas, do esperanto ao russo, passando pelo japonês e, claro, o português e o inglês, são outros elementos fundamentais na obra de Penalva, a que não deve ser alheio o facto de viver há mais de quarenta anos fora do seu país de origem, Portugal. Londres tornou-se a sua casa. A dimensão autobiográfica é outro dado incontornável para entendermos esta obra que tem tanto de complexo como de actos aparentemente simples: um gesto, uma palavra, uma paisagem.

Bailarino, pintor, actor, escritor, tradutor, gráfico, curador, cineasta, fotógrafo - João Penalva encarna e circula por todos estes papéis, e, por extensão, movimenta-se entre o universo da escrita e o universo das imagens criando um lugar único e simultaneamente universal. É esse lugar único que esta exposição pretende mostrar.

Será mostrada uma parte desta exposição na Kunsthallen Brandts, Dinamarca, de 2 de Março a 28 de Maio de 2012.

CAM-FCG