Rui Ferreira

Pele

2009-07-09 | 2009-09-05

 

RUI FERREIRA | PELE

09.07 > 05.09.2009


 

Rui Ferreira faz parte da nova geração de artistas que confirma na pintura um meio de expressão empenhado em resistir no contexto das práticas artísticas contemporâneas e dos paradigmas introduzidos pela crescente apropriação de novas temáticas e de novos media

  

O título da exposição - "Pele" - relaciona-se metafórica e simbolicamente com o processo criativo do artista e com as experiências e tentativas de caminhos pictóricos que tem vindo a ensaiar desde os tempos da faculdade: uma pintura constituída por diversas camadas que no decurso da sua execução se vai revivificando num processo de regeneração contínuo e análogo à Pele.

  

Uma Pele onde se interligam começo, meio e fim, como se uma rede se prendesse a outra e a outra e assim sucessivamente, sem que seja, no entanto, possível descortinar por onde iniciou ou prosseguiu o trabalho.

  

Efectivamente, observando os trabalhos do artista verificamos que se adivinha impossível distinguir e identificar tanto cronológica como hierarquicamente as fases constituintes do processo de realização de cada obra. Ele encobre, voluntaria e deliberadamente, indícios compositivos deixando-nos aceder somente ao que poderemos designar de (uma) Pele final que não é mais do que o quadro concluído!

 

Perante a impossibilidade de uma reconstrução arqueológica percebemos ainda que o artista nos está, simultaneamente, a vedar um processo subliminarmente camuflado por camadas de tinta e texturas resultantes de múltiplas e incessantes experimentações.

  

Naturalmente que se conclui sem dubiedade que existe uma invenção mecânica para produzir estas imagens. Um engenho que permanece indecifrável e obscuro e que o jogo de ocultação e revelação - intensificado sobretudo nestes últimos trabalhos nos quais extensas zonas da superfície da tela são ocultas através da utilização de preparado industrial que pressionado sobre as camadas introduz vazios pictóricos - vem reforçar muito mais.  

  

E é precisamente essa incerteza e impossibilidade de reconstituição processual a provocar um certo desconforto e desassossego e a remeter-nos para um remoinho infinito de suposições. Num ímpeto virtual somos tentados a puxar um dos fios de tinta e ir puxando e desapegando-o das extremidades até desembaraçar o enredo plástico que se esconde por detrás da Pele.

 

 

Cada pintura deixa uma entrada para a seguinte. O próprio processo de pintura de Rui Ferreira é um processo aberto com princípio e fim incógnitos no qual as formas vão nascendo "a partir de um esquema definido e de sucessivas correcções desse esquema ou então de um novo processo por inventar [1]".

 

Mais do que uma preocupação com o resultado visual, existe uma notória compulsão (obsessiva) com as etapas de cada pintura definidas como se de um ritual se tratasse: "Cada tela apresenta-se como um campo de intensidades num jogo gramatical que coloca problemas internos à pintura e encontra para ele soluções provisórias [2]".

 

Um curioso paradoxo ressalta claramente dos seus trabalhos: a ideia de estarmos perante um processo de execução delimitado com precisão, mas que contemporaneamente possibilita e até desencadeia o acaso, não excluindo, por isso, inevitáveis acidentes e efeitos de erro inesperados na trama. E o artista tira laboriosamente partido desses erros e improbabilidades da matéria para explorar novas possibilidades pictóricas, dando, deste modo, abertura a uma improvisação que segue os ritmos de uma pintura envolvente e até performativa: "através da prática da pintura, dos  seus processos, é que posso perceber o que uma pintura pode ser[3]".

 

 

 


[1] Carlos Vidal, in catálogo publicado no âmbito da exposição "Temperatura", Galeria Filomena Soares, Lisboa

[2] Celso Martins, in Expresso pp. 42, 5 de Maio de 2007

[3] Rui Ferreira