exposições

2011-05-26 | 2011-09-18

 

O voo do Bumerangue - 10 anos da Galeria Filomena Soares

Curadoria de David Barro

26.05 - 10.09.2011

 

ÂNGELA FERREIRA

ANTÓNIO OLAIO

HELENA ALMEIDA

INÊS BOTELHO

JOÃO PEDRO VALE

JOÃO PENALVA

JOSÉ PEDRO CROFT

JÚLIA VENTURA

PEDRO CASQUEIRO

RODRIGO OLIVEIRA

RUI FERREIRA

VASCO ARAÚJO

 

 

De entre as muitas formas de imaginar metaforicamente um galerista, nenhuma me parece mais sedutora do que o voo de um bumerangue. Sobretudo considerando que se trata do instrumento de ida e volta mais antigo de que se tem conhecimento. Mas o efeito bumerangue pressupõe sempre um risco, e é evidente que nem todos os bumerangues regressam à mão do lançador.

 

A galeria Filomena Soares cumpre 10 anos de existência e celebra-os apostando nos seus próprios artistas em jeito de homenagem partilhada que nos lembra que uma galeria é algo mais do que um espaço comercial. Uma galeria de arte é sobretudo um lugar com uma vertente cultural, uma plataforma para a promoção e projecção da arte e dos artistas, um caminho para contextualizar, para fomentar interconexões e para se enriquecer a partir dos confrontos. Daí os seus esforços em divulgar e difundir, porque os seus esforços são a chave de um processo que detém uma responsabilidade, um compromisso que quase sempre implica um esforço económico e social, já que dentro desse exercício de promoção se esconde o necessário investimento em feiras, em catálogos, em imagem ou em pessoal, uma vez que um dos maiores problemas com que um artista depara ao longo da sua trajectória é o problema da rotação.

Numa verdadeira galeria de arte contemporânea, só é possível crescer olhando firmemente para fora. Algo semelhante ao que acontece em Cinema Paraíso, quando Fredo sonha com o triunfo de Totó, o rapaz que viu crescer e no qual inculcou um amor apaixonado pelo cinema, dizendo-lhe: \"Vai-te embora! Vai-te embora e não voltes nunca... A partir de hoje não te quero ouvir falar; agora, quero ouvir falar de ti\". Mas nessa espécie de viagem iniciática é importante o movimento sem esquecer que nessa trajectória se torna necessário repetir várias vezes um caminho de ida e volta. É imprescindível entender que uma boa galeria se apoia em ambas as forças, numa força centrífuga e numa força centrípeta, como esse bumerangue que também nos serve como metáfora de todas as obras de arte que foram lançadas da Galeria Filomena Soares ao espectador para que este reflectisse sobre elas, expandindo o seu significado de modo a que, enriquecido, regressasse ao seu lugar inicial. O facto de essa trajectória ser mais ou menos rica depende, em grande parte, da habilidade e do empenho do lançador, do galerista.

Por outro lado, se atendermos aos movimentos dos artistas, advertimos que, como num bumerangue, alguns desses movimentos atentam contra as leis do comum, sendo que estes são surpreendentes e estranhos para muitas pessoas alheias à arte contemporânea, daí de que sejam objectos de fascinação. Muitas pessoas não entendem a arte contemporânea e assumem-na como ilegível ou caótica, mas também noutros campos, como no âmbito matemático, o conceito de caótico não equivale a desordem, antes se relaciona com o imprescindível enquanto desconhecimento das verdadeiras leis do seu comportamento.

A ideia simples desta mostra amparada no voo do bumerangue como metáfora é reunir os artistas da galeria Filomena Soares numa espécie de homenagem aos seus dez anos de trajecto, desde que em 2000 começou o seu percurso na zona oriental de Lisboa, num singular espaço de quase 1000 m2.

Nesse já longo caminho, muitas obras foram produzidas e apresentadas, mas também muitas outras ficaram por fazer ou apresentar nas respectivas exposições; quer tenha sido por motivos conceptuais, uma vez que não encaixavam na exposição programada pelo artista; por falta de tempo; por problemas de produção; por ter sido pensada ou engendrada paralelamente ou depois da celebração da exposição; etc. O voo do bumerangue não pretende ser mais do que isso, um regresso a casa para completar o incompleto, para celebrar a peça que falta.

 

David Barro

Março de 2010