Rodrigo Oliveira

ESPLANADA: Utopia no Planalto e uma Brasília Indiana

2016-01-21 | 2016-03-12

A Galeria Filomena Soares tem o prazer de apresentar a exposição intitulada Esplanada: Utopia no Planalto e uma Brasília Indiana do artista Rodrigo Oliveira (Lisboa, 1978). A exposição inaugura a 21 de janeiro, pelas 21h30 e estará patente até o dia 12 de março de 2016.

Desde o início da sua carreira, em 2003, que o artista tem apresentado, sob diversos pontos de vista e numa panóplia de materiais e técnicas, as suas preocupações estéticas e históricas e, consequentemente, sociais e políticas. Para a mais recente exposição o artista dá continuidade à sua particular investigação sobre a arquitectura modernista, nomeadamente nas figuras dos arquitectos: Le Corbusier, Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Pierre Jeanneret, Maxwell Fry, Jane Drew, entre outros. Tendo como pretexto 2 cidades do hemisfério sul - Brasília no Brasil e Chandigarh na Índia - as obras apresentadas discorrem e desconstroem livremente os pressupostos e paradigmas do poder instituído pela cultura ocidental.

Como método de pesquisa o artista propõe as obras "Arquivo (Aproximações e processos sem lógica aparente #1" (2013/16) e "Inventário (Cidades planeadas)" (2009/15). Em ambos os casos estamos perante um arquivo muito próprio da investigação realizada sobre a temática apresentada. Os desenhos e projectos revelam pormenores - estruturas que davam apoio à edificação da cidade; esplanadas que circundam os edifícios; e observatórios astrónomos indianos - que se vem a problematizar noutras obras. A cronologia das cidades revela uma preocupação referencial que as obras questionam, como forma de sinalizar, ao mesmo tempo que se homenageia, as cidades construídas de raiz. A série de fotografias "À procura da Utopia (estado actual)" (2015), também fazem parte da investigação, mas neste caso tratam-se de fotografias in loco e actuais, das 2 cidades estudadas: Brasília e Chandigarh. Estas fotografias revelam a procura de elementos particulares e específicos de situações relevantes para o modernismo, nomeadamente a circulação de pessoas nas cidades, ruas e edifícios modernos em passadiços ou promenades. Este foco revela-se num olhar escultórico e isolado para estas estruturas fixas: numa lógica de rampa que se assimilam às estruturas efémeras que permitiam a edificação das cidades.

As esculturas intituladas "Observatórios" (2015/16) apresentam-se contaminando o espaço expositivo. Tratam-se se um conjunto de estruturas de madeira ligeiramente tingidas em referência às cores dos observatórios astrónomos de Jantar Mantar, construídos no século XVII em Jaipur e Nova Deli. Estas esculturas referem-se tanto às esplanadas construídas entre os edifícios modernistas - espaços desenhados como desmonstração de poder - como também às plataformas precárias e frágeis de apoio à edificação que deixaram de ter a sua função específica e deixaram de existir. Contudo, ambas as estruturas permitem a fruição dos transeuntes, mas com diferentes usos e conceitos. Se por um lado as estruturas de betão permanentes permitiam um fluxo utópico de livre circulação das cidades modernas, as estruturas de madeira revelam a precariedade do aparato. Ao contextualizar, individualizar e objectivar estas estruturas revelam as suas próprias formas e conceitos escultóricos. Contudo, as esculturas complexificam-se à medida que destabilizam o eixo cartesiano horizontal e vertical: na autonomia de transporte e arrumação da própria obra; e no uso de cordas e espelhos que amplificam o espaço. Estas estruturas, ao perderem a sua função, reconfiguram o espaço e parasitam a arquitectura estável, permitindo abarcar um espaço mais amplo e sem as regras impostas pelo dogma modernista.

O conceito da "arquitectura promenade" em Corbusier aparece na Maison la Roche (1923) e culmina na Villa Savoye (1928). Referenciado em 1929 no primeiro volume das "Obras Completas" esta expressão descreve estruturas arquitectónicas que permitem de certo modo colocar o espectador da casa sobre a forma de um olhar, como se ele próprio se tornasse parte da cena representada. Inspirada na arquitectura árabe, estas rampas interiores formavam modos de circulação entre a luz e a sombra, amplificando a dramatização do cenário edificado. A obra de Rodrigo Oliveira pressupõe, em grande parte, a relação entre 2 polos diametralmente opostos, mas atendendo ao que os intermeia. A relação entre as cimentadas promenades, que humanizam a arquitectura e as estruturas precárias vislumbram uma visão modernista instalada na sua própria crítica à procura constante de um modelo ou ideal. Contudo, na obra do artista, a descontextualização dos elementos arquitectónicos e a promoção de elementos não nobres constrói em si mesmo uma clara ideia de não monumentalidade das obras apresentadas. Tendo em atenção a relação entre o hemisfério sul e hemisfério norte, que por vezes aparece na obra do artista, retira-se a carga universal aos pressupostos modernistas, pois a utilização destes ideais impulsionou resultados tão diferentes como Brasília e Chandigarh. Esta releitura poderá, sem ser implicativa nem activista de um discurso politizado sobre o pós-colonial e nem se encerrar num determinado programa propagandístico, ser uma revisitação perversa e sedutora, como se de uma pertinente perspetiva plástica e de sublimação pessoal se tratasse.