João Tabarra

Discrépant

2014-03-27 | 2014-05-18

A Galeria Filomena Soares tem o prazer de apresentar a exposição intitulada DISCRÉPANT, do artista JOÃO TABARRA (Lisboa, 1966). A exposição, que inaugura no dia 27 de Março, estará patente até ao dia 17 de Maio de 2014.


O Amor depois da eternidade
Sobre "Discrépant" de João Tabarra, 2014

"Uma cartografia da nossa íntima infinidade", desta forma João Tabarra descreve a sua instalação cósmica Discrépant.
Uma das hipóteses mais consideradas, a propósito da aparição da vida na terra, refere-se à tribologia, mais exactamente à fricção de dois corpos, de dois movimentos, de duas energias: bem no fundo dos oceanos, a vida teria nascido da fricção entre correntes de água fervilhante surgindo do magma das águas geladas do abismo. Dos seus entrelaçados, das suas fusões, nascem as bactérias, os organismos e, daí, todas as espécies vivas. Mas para que aconteça a fricção entre duas energias, tem de haver, também, uma discrepância, um desajuste, mesmo que ínfimo, que transforme a energia em matéria, o trajecto em cristalização. Podemos aí reconhecer o clinâmen de Epicuro, que desvia os átomos da queda no vazio e permite a criação da matéria. Como uma espécie de Epicuro cibernético, João Tabarra abala o conjunto dos fenómenos (físicos, fisiológicos e psíquicos) à luz desta dessincronização que enriquece a atracção e a transforma em força de vida. A voz da criança antecipa, por um nano-segundo, o que ela descreve para o fazer acontecer, os corpos dos pais vacilam perante a sua tarefa de Parcas-Sheherazades preferindo contar e contar de novo sem parar os seus filhos-cabelos, em vez de os cortar. Aquilo que persiste da vida depois da morte, tal é a dessincronização fértil a partir do qual o universo renascerá. Com Discrépant, João Tabarra responde àquilo que perguntava Auguste Blanqui em L'Eternité par les astres (1872): "quando um sol se apaga gelado, quem devolverá o calor e a luz? Só pode renascer sol. Ele dá a vida ao pormenor a miríades de seres vivos. Só a pode transmitir aos seus filhos pelo casamento. Quais poderão ser as bodas e as criações desses gigantes da luz?" De um modo melancólico e hiper-realista, Discrépant transforma os pequenos corpos frágeis dos pais em totens mitológicos, que dançam no limbo do desaparecimento, numa cenografia que confunde a cena primitiva e o ritual da conspiração. Aqui, neste universo infinito, tudo é reversível, a pele do nosso organismo dá acesso ao cosmos, o antes envolve-se no depois, o sonho de angústia da criança levou os seus pais aos caminhos da eternidade e, depois da eternidade, o amor fará com que tudo volte, mais uma vez.

Nicole Brennez