Galeria

VASCO ARÁUJO | Obra Bienal de São Paulo

2009-01-17

 BIENAL DE SÃO PAULO 2008

 VASCO ARAÚJO

SOME ENCHANTED EVENING, 2001. Performance (6 homens musculosos de tanga, vestido de tule e lantejoulas - preto, branco, azul e cinzento cantor lírico). Música: SOME ENCHANTED EVENING, de Rodgers & Hammerstein. 

  

Fernanda D'Agostino Dias: Caro Vasco, em 1999 você começa a expor seus trabalhos; antes disso se dedicou à ópera e à sua formação como artista, estudando fotografia e escultura. Apesar das diferentes meios que utiliza, é notável a cultura erudita como tema norteador de sua obra. O que o atrai nesse universo?

 

Vasco Araújo: Talvez eu sempre tenha sido fascinado pela cultura clássica, o que ela nos apresenta como memória de nós próprios, como seres humanos. Penso que é na análise do passado que nos revemos; o futuro é uma projecção, e o presente, uma encenação; não existe realidade, ela é a encenação daquilo que pensamos ser a realidade, e por isso mesmo não a julgamos, e muitas vezes não a compreendemos. O uso da cultura erudita possibilita-me a situação de conceitos e ideias, deslocando-os do seu próprio estado normal para outro. Grande parte das coisas que eu trabalho são situações banais, no sentido em que na ópera as histórias também são banais, mas o fato de as vermos hoje faz com que as interpretemos de forma diferente.

 

Por outro lado, eles nunca podem ser negados ou postos em causa, pelo fato de se tratar de objetos clássicos, ou ditos antigos, eles têm uma universalidade inerente. Ninguém pode apontar o dedo e dizer: ah não, isso não é bem assim ou isso não... A cultura erudita permite-me o confronto e a reacção directa com o público.


Fernanda D'Agostino Dias: Outro tema seria a identidade de género, é intrigante ver imagens suas vestido de diva e encarnando vozes femininas. Tomando como exemplo a ópera, em que se travestir pode ser uma prática e não um tabu, gostaria de saber se ao incorporá-la em sua obra você não estaria buscando tratar da questão com a mesma leveza nas artes plásticas.


Vasco Araújo: O género não me interessa. A identidade é a nossa base, a base do ser humano, tal como a voz, ela nos dá a nossa dimensão, ela é a nossa identidade. Podemos ser muitos sem mudar de corpo, ou seja, tal como na ópera, o personagem muda de identidade, porque se veste e/ou se caracteriza de outro, passa de homem para mulher, de mulher para homem, de homem para monstro, mas no fim ele é só um, ele somente representa outros, ele tem outros. Foi isso mesmo que eu quis fazer nas artes plásticas. Ser muitos num só. Agora sou mulher, depois homem, velho, monstro etc., sem que se perca o centro, a essência, o eu interior, que, no fim, talvez, nunca se revele, e/ou se revele por intermédio dos outros. Por que não sermos muitos para podermos falar de tudo? Por outro lado, penso que por meio de um personagem fictício é mais fácil de chegarmos aos outros. Pois ele nos fala do real, daquilo que dói, mas que nunca temos coragem de falar ou mesmo de ouvir. Em resposta à sua pergunta, penso que a leveza depende de quem a observa.

 

Fernanda D'Agostino Dias: Sobre a performance Some Enchanted Evening (2001), que você irá apresentar na 28ª Bienal de São Paulo, qual foi o contexto para o qual ela foi criada? Também me interessa saber por que você escolheu a canção homónima" de 1949.

 

Vasco Araújo: A performance foi criada para a abertura do novo espaço da Galeria Filomena Soares [em Lisboa]. Tal como foi realizada, ela será igualmente apresentada na Bienal. Seis homens vestidos com sungas negras irão me carregar com um vestido enorme, desde a rua até o interior do pavilhão da Bienal. Já dentro do edifício, eu irei começar a cantar a canção Some Enchanted Evening, e subir toda a rampa do pavilhão, tal como na galeria, onde entrávamos e percorríamos todo o espaço. A escolha dessa canção deve-se ao fato de ela nos falar da tentativa de encontrar amor num quarto vazio, ou seja, ela é, para mim, um apelo à procura de amor próprio. Parecida em forma a um cortejo fúnebre, esta performance é a tentativa de buscar amor no último instante, o qual é reforçado pela própria música e pela forma de cantar, como um último suspiro.

 

 

" Do musical South Pacific. Autores: Oscar Hammerstein ii & Richard Rodgers.


Fernanda D'Agostino Dias vive em São Paulo. Actuou como assistente curatorial na 28ª Bienal de São Paulo.

 

 

http://www.28bienalsaopaulo.org.br/participante/vasco-araujo