Galeria

VASCO ARAÚJO | IN CONNECTION

2009-02-07

 

 

Curadoria: Isabel Vaz Lopes

12 De Fevereiro a 12 de Março

Pavilhão 28 do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa

 

INAUGURAÇÃO: 12 de Fevereiro às 21h00


Nova Cultura - Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa
92 6534795

Espaço Pavilhão28
http://pavilhao28.blogspot.com

 

 

A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana. Não ter consciência dela, e ela não ser grande, é ser homem normal. Não ter consciência dela e ela ser grande, é ser louco. Ter consciência dela e ela ser pequena é ser desiludido. Ter consciência dela e ela ser grande é ser génio. (Fernando Pessoa, Aforismos e Afins)

 

 

IN CONNECTION é a segunda de uma série de 3 exposições cujo princípio incide sobre o desenvolvimento das relações entre temas, conceitos, artistas, espaço expositivo (público e/ou privado) e curadora/comissária.

 

Estas exposições nasceram da necessidade de levantar questões acerca do papel cada vez mais preponderante do curador/a -comissário/a no desenvolvimento do processo artístico, tornando-se em alguns casos o protagonista das propostas expositivas.

 

Os artistas vão estabelecer contacto com o local de exposição, Pavilhão 28 - Hospital Júlio de Matos. Este edifício foi construído entre 1914 e 1941 e implantado num terreno que começou a ser arborizado no início dos anos 20, mostrando desde logo preocupações ambientais, paisagísticas e de recreio para os doentes, espaços arborizados que foram considerados pelos médicos de então "peça essencial no quadro ambiencial onde se insere a comunidade terapêutica do Hospital".

 

Este local permitiu um trabalho de equipa que desenvolveu um novo método terapêutico, promovendo as actividades desportivas, lúdicas e de expressão plástica, num "esforço sempre renovado e nunca acabado para evitar a rotina estéril da acção assistencial".

 

Os artistas focarão o tema da demência, perda de origem orgânica, frequente e progressiva, sobretudo da memória, mas que também compromete o pensamento, julgamento e/ou capacidade de adaptação a situações sociais, o comportamento inusual que aparenta ou sugere loucura, a insensatez, doidice e parvoíce afasta gradualmente estas pessoas do contacto social.

 

As demências, assim classificadas, são várias: alcoólica, precoce e senil. A primeira advém do abuso do álcool, a segunda é uma forma de esquizofrenia que aparece na juventude ou logo após esta fase, e aquela acontece a pessoas idosas devido à esclerose.

 

Também as perturbações psicológicas são várias: a alucinação, perturbação mental que se caracteriza pelo aparecimento de sensações (visuais, auditivas etc.) atribuídas a causas objectivas, que na realidade inexistem, visões fantásticas, sensações sem objecto, impressão ou noção falsa sem fundamento na realidade, devaneios e delírios, enganos - desilusões. A afronésia, que etimologicamente é acção de pensar, desígnio, percepção pela inteligência, pelo sentimento, inteligência de uma coisa, inteligência racional, razão e sabedoria, mas que, ao nível da psicologia, é o desequilíbrio das faculdades mentais.

Há também termos que entraram no nosso vocabulário comum, como frenesi ou delírio violento provocado por uma afecção cerebral aguda, estado de exaltação violenta que põe o indivíduo fora de si, exaltação e arrebatamento de sentimentos com actividade intensa e agitação.

 

O tresvario, ausência de lucidez, perturbação mental.

 

O vareio, estado de perturbação mental na qual o indivíduo profere disparates, diz coisas sem nexo.

 

E a veneta? Esse acesso súbito de loucura, impulso repentino, capricho.

 

 

Algumas destas perturbações são do domínio do "ser" comum. Assim sendo, qual a linha ténue ou qual o limite que nos transpõe para a catalogação de louco e a exclusão social?

 

 

...................

Fiz de mim o que não soube,

E o que podia fazer de mim não o fiz.

O dominó que vesti era errado

Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.

 

Quando quis tirar a máscara,

Estava pegada à cara.

Quando a tirei e me vi ao espelho,

Já tinha envelhecido.

Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.

 

Deitei fora a máscara e dormi no vestiário

Como cão tolerado pela gerência

Por ser inofensivo

E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

..........................

(Álvaro de Campos, nascimento fictício em 15 de Outubro de 1890, em Tavira, excerto "Tabacaria")

 

 

 

Estas questões serão enunciadas e tratadas pelos artistas convidados a participar nesta exposição, que se mostra no local de acolhimento e tratamento de pessoas com perturbações mentais.

 

Um local, que, como já referido, permitiu um novo método terapêutico, que passa pela promoção de actividades desportivas, lúdicas e de expressão plástica.

No âmbito deste conceito terapêutico, convidámos um artista que integra o grupo do atelier de artes plásticas do centro hospitalar psiquiátrico de Lisboa para participar nesta exposição.

 

Esta é a primeira intervenção da curadora nesta série de exposições.

 

 

E assim escondo-me atrás da porta, para que a Realidade, quando entra, me não veja. Escondo-me debaixo da mesa, donde, subitamente, prego sustos à Possibilidade. De modo que desligo de mim, como aos dois braços de um amplexo, os dois grandes tédios que me apertam - o tédio de poder viver só do Real, e o tédio de poder conceber só o Possível.

Triunfo assim de toda a realidade. Castelos de areia, os meus triunfos?...De que coisa essencialmente divina são os castelos que não são de areia? (Bernardo Soares, Livro do Desassossego)

 

 

 

Lisboa, 27 de Janeiro 2009-01-27

Isabel Vaz Lopes