Galeria

JOÃO PEDRO VALE | INDIVIDUAL NA GALERIA FONSECA MACEDO

2010-10-12

 

ENGLISH AS SHE IS SPOKE, 2010

 

"English as she is spoke" consiste num projecto desenvolvido por João Pedro Vale especificamente para a Galeria Fonseca Macedo nos Açores, composta por um filme e um conjunto de esculturas e desenhos.

 

O filme (cor+som) com a duração de 42 minutos e apresentado numa projecção e complementado por um conjunto de esculturas e desenhos utilizados para a elaboração do filme ou desenvolvidos posteriormente, tendo o filme como ponto de partida.

 

O projecto parte de "ENGLISH AS SHE IS SPOKE - O Novo Guia da Conversacao em Portuguez e Inglez, em Duas Partes " (correctamente dir-se-ia English as it is spoken), titulo de um guia de conversação português - inglês publicado em 1855 por Pedro Carolino e José da Fonseca (1788‐1866), que devido aos seus erros e considerado um dos grandes clássicos do humor não intencional, uma vez que nenhum dos autores sabia falar inglês.

 

Partindo da estrutura do livro, nomeadamente de excertos que reproduzem conversas tipo, foram criadas novas situações para a realização de um filme, utilizando como referência, a serie "Follow Me" da BBC Learning Television, popularizada em Portugal durante os anos 80.

 

 O filme, que parece a primeira vista ser um episodio de um curso de inglês, acaba por desvendar a historia de um repatriado dos Estados Unidos/Canada que

na realidade tenta aprender português.

 

Seguindo uma estrutura de sketches, característica tanto do programa da BBC como da revista a portuguesa, o filme apresenta-se como uma espécie de peca de teatro filmada em directo. Não sendo aqui indiferente alguns vídeos disponíveis na internet, onde filhos de imigrantes portugueses na America mimetizam conversas reais ou fictícias em português, como exercícios para as aulas de português que frequentam. Apesar da tentativa de preservar a cultura de origem, aquilo a que se assiste, são cliches sobre uma certa ideia de Portugal desfasada no tempo, mas que no entanto, foi a razão principal pela qual a geração anterior a eles emigrou.

 

O texto do filme e escrito para dois actores, um português e um estrangeiro. Aquilo que parece um dialogo, e afinal um jogo de replicas em português- inglês, sendo que o português e uma tradução directa do inglês e vice-versa, seguindo a metodologia que presidiu ao livro "English as she is spoke".

 

Mais do que contar a historia do repatriado, o filme pretende retratar um processo de

tradução/aculturação forcada a uma suposta pertença meramente burocrática. Como elementos importantes temos aqui a língua e as memorias do repatriado daquilo que para ele pode significar ser português.

 

O cenário do filme consiste numa cela de rede e num conjunto de desenhos a giz sobre tinta de ardósia, uma referência aos antigos quadros de escola e aos telões utilizados nos cenários de cinema ou do teatro de revista. Estes desenhos servem para a criação de diferentes cenários, transportando os actores para diferentes situações espacio-temporais consoante os diálogos e situações sugeridos no texto.

 

 

 

Sinopse do filme:

 

John nasceu nos Açores. Com 9 anos de idade emigrou com os pais para Newark (EUA)

de onde nunca mais voltaram. Como os pais não sabiam ler nem escrever, foi o pequeno

John que preencheu todos os papeis relativos ao processo de emigração.

 

 John cresceu com a cultura americana tendo como única referencia a cultura da sua terra natal algumas canções que a mãe, uma fadista frustrada, costumava cantar em casa e uma vaga ideia de uma infância passadas nos Açores. O pai sempre foi a figura dominante da família, proibindo primeiro a mulher, depois o filho de seguir uma carreira musical. John não sabe falar português porque o pai, a partir do momento que emigrou para os EUA, sempre proibiu a família de falar português em casa como forma de se sentir mais americano. No entanto este fulgor patriótico leva a que se crie entre eles uma língua estranha, uma vez que vivem demasiado fechados na comunidade portuguesa e os pais nunca tiveram aulas de inglês.

 

Desde cedo que John se sente desenraizado. Não e português porque e impedido de desenvolver quaisquer contactos com a cultura de origem da família, mas também não se sente totalmente americano, uma vez que e discriminado pelos colegas devido novamente as suas origens.

 

Quando o pai descobre que John e gay e que vai as escondidas aos castings da Broadway, expulsado de casa. John passa a viver de expedientes enquanto tenta encetar uma carreira musical. Apanhado por um qualquer delito e detido pela policia e como nunca se naturalizou, e posteriormente deportado para os Açores. Quando chega depara-se com um meio demasiado pequeno e fechado com o qual não tem qualquer tipo de relação e onde e identificado única e exclusivamente com os outros deportados na mesma situação.

 

Expulso da família, expulso do pais e expulso da comunidade açoriana, John faz um esforço para aprender a língua portuguesa como forma de tentar a integração, mas logo percebe que a sua orientação sexual será sempre um factor de exclusão dentro da comunidade dos excluídos.

 

No filme John esta a ser interrogado. E neste processo vai-se lembrando das varias situações de interrogatório que foi tendo ao longo da vida. Lembra-se de quando o pai o confrontou com as suas opções pessoais, de quando foi recusado num casting da Broadway por não saber cantar, de um engate com um estranho num bar que o recusou por ele dizer que vivia em New Jersey, do interrogatório policial que levou a sua detenção, de uma conversa sobre sobrevivência na prisão com o colega de cela, da chegada aos Açores e da recepção feita por um padre e das ameaças feitas por outro deportado auto-proclamado líder dos deportados nos Açores.

 

No fim, fechado sobre si próprio, John canta o seu destino e a sua condição.