
Curadoria: Isabel Vaz Lopes
12 De Fevereiro a 12 de Março
Pavilhão 28 do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa
INAUGURAÇÃO: 12 de Fevereiro às 21h00
Nova Cultura - Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa
92 6534795
Espaço Pavilhão28
http://pavilhao28.blogspot.com
A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana. Não ter consciência dela, e ela não ser grande, é ser homem normal. Não ter consciência dela e ela ser grande, é ser louco. Ter consciência dela e ela ser pequena é ser desiludido. Ter consciência dela e ela ser grande é ser génio. (Fernando Pessoa, Aforismos e Afins)
IN CONNECTION é a segunda de uma série de 3 exposições cujo princípio incide sobre o desenvolvimento das relações entre temas, conceitos, artistas, espaço expositivo (público e/ou privado) e curadora/comissária.
Estas exposições nasceram da necessidade de levantar questões acerca do papel cada vez mais preponderante do curador/a -comissário/a no desenvolvimento do processo artístico, tornando-se em alguns casos o protagonista das propostas expositivas.
Os artistas vão estabelecer contacto com o local de exposição, Pavilhão 28 - Hospital Júlio de Matos. Este edifício foi construído entre 1914 e 1941 e implantado num terreno que começou a ser arborizado no início dos anos 20, mostrando desde logo preocupações ambientais, paisagísticas e de recreio para os doentes, espaços arborizados que foram considerados pelos médicos de então "peça essencial no quadro ambiencial onde se insere a comunidade terapêutica do Hospital".
Este local permitiu um trabalho de equipa que desenvolveu um novo método terapêutico, promovendo as actividades desportivas, lúdicas e de expressão plástica, num "esforço sempre renovado e nunca acabado para evitar a rotina estéril da acção assistencial".
Os artistas focarão o tema da demência, perda de origem orgânica, frequente e progressiva, sobretudo da memória, mas que também compromete o pensamento, julgamento e/ou capacidade de adaptação a situações sociais, o comportamento inusual que aparenta ou sugere loucura, a insensatez, doidice e parvoíce afasta gradualmente estas pessoas do contacto social.
As demências, assim classificadas, são várias: alcoólica, precoce e senil. A primeira advém do abuso do álcool, a segunda é uma forma de esquizofrenia que aparece na juventude ou logo após esta fase, e aquela acontece a pessoas idosas devido à esclerose.
Também as perturbações psicológicas são várias: a alucinação, perturbação mental que se caracteriza pelo aparecimento de sensações (visuais, auditivas etc.) atribuídas a causas objectivas, que na realidade inexistem, visões fantásticas, sensações sem objecto, impressão ou noção falsa sem fundamento na realidade, devaneios e delírios, enganos - desilusões. A afronésia, que etimologicamente é acção de pensar, desígnio, percepção pela inteligência, pelo sentimento, inteligência de uma coisa, inteligência racional, razão e sabedoria, mas que, ao nível da psicologia, é o desequilíbrio das faculdades mentais.
Há também termos que entraram no nosso vocabulário comum, como frenesi ou delírio violento provocado por uma afecção cerebral aguda, estado de exaltação violenta que põe o indivíduo fora de si, exaltação e arrebatamento de sentimentos com actividade intensa e agitação.
O tresvario, ausência de lucidez, perturbação mental.
O vareio, estado de perturbação mental na qual o indivíduo profere disparates, diz coisas sem nexo.
E a veneta? Esse acesso súbito de loucura, impulso repentino, capricho.
Algumas destas perturbações são do domínio do "ser" comum. Assim sendo, qual a linha ténue ou qual o limite que nos transpõe para a catalogação de louco e a exclusão social?
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Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
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(Álvaro de Campos, nascimento fictício em 15 de Outubro de 1890, em Tavira, excerto "Tabacaria")
Estas questões serão enunciadas e tratadas pelos artistas convidados a participar nesta exposição, que se mostra no local de acolhimento e tratamento de pessoas com perturbações mentais.
Um local, que, como já referido, permitiu um novo método terapêutico, que passa pela promoção de actividades desportivas, lúdicas e de expressão plástica.
No âmbito deste conceito terapêutico, convidámos um artista que integra o grupo do atelier de artes plásticas do centro hospitalar psiquiátrico de Lisboa para participar nesta exposição.
Esta é a primeira intervenção da curadora nesta série de exposições.
E assim escondo-me atrás da porta, para que a Realidade, quando entra, me não veja. Escondo-me debaixo da mesa, donde, subitamente, prego sustos à Possibilidade. De modo que desligo de mim, como aos dois braços de um amplexo, os dois grandes tédios que me apertam - o tédio de poder viver só do Real, e o tédio de poder conceber só o Possível.
Triunfo assim de toda a realidade. Castelos de areia, os meus triunfos?...De que coisa essencialmente divina são os castelos que não são de areia? (Bernardo Soares, Livro do Desassossego)
Lisboa, 27 de Janeiro 2009-01-27
Isabel Vaz Lopes